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da curadoria da Typus #6

A DOR QUE NÃO CALA

Bianca Oliveira

Bianca Oliveira é paranaense e tem dois filhos de quatro patas que são seus companheiros do dia a dia.

 

A autora diz que escreve porque precisa verbalizar seus sentimentos, ideias e opiniões e que, com seus textos, deseja tocar mentes e ajudar pessoas que sejam alcançadas por suas palavras.

 

Ainda descobrindo seus pontos fortes dentro desse mundo gigante da literatura, Bianca afirma que ama escrever resenhas, indicar livros, filmes e séries e que produz contos e poesias sobre assuntos variados.

A DOR QUE NÃO CALA

Texto selecionado para integrar a Antologia Ser Mulher 2026

Por muito tempo tive dificuldade de me amar, sempre achava algo para criticar em mim ou nunca achava minhas conquistas e ações boas o suficiente. Não me achava bonita ou inteligente, me via como alguém que precisava constantemente agradar o outro e escrava da aprovação alheia. 

 

Até que uma amiga, que não via a um tempo, me indicou uma terapeuta, bem na verdade era um hipnóloga, não conhecia esse termo ainda. Segundo ela, mudou sua vida. 

 

Estava incrédula, nunca acreditei fielmente nesse tipo de terapia, mas, como ela manteve o mistério de como funcionava, me deixou curiosa e me obriguei a marcar uma sessão. 

 

Cheguei ao consultório com 15 minutos de antecedência e, quando me acomodei na sala de espera, percebi que estava com as mãos suadas e trêmulas, sentia um nervosismo que não tinha notado até então e não entendia o motivo. 

 

Assim que fui chamada e adentrei no consultório, senti um aroma de flores no ar e notei que havia um difusor ligado, tudo para deixá-lo mais aconchegante. A hipnóloga pediu que a chamasse pelo nome, Luiza, me explicou que é especializada nessa técnica há 10 anos e já atendeu centenas de pessoas. Comentou que cada paciente responde à terapia de uma forma e o processo depende de cada um, para evoluir. Me questionou o motivo de estar ali e meu grau de ceticismo nessa prática. 

 

Completou me dizendo que na hipnose é acessado o subconsciente do hipnotizado, com o intuito de ajudar no relaxamento e concentração, pode-se manter apenas esse estágio ou, caso o paciente esteja de acordo, também é possível optar pela técnica de regressão, onde serão acionadas memórias subconscientes, que podem ser de sua adolescência, infância, gestação ou até vidas passadas. O intuito é entender como os acontecimentos pregressos podem ter causado os traumas e bloqueios atuais.

 

Eu procurei me abrir totalmente e me deixar levar, disse que já tentei algumas terapias convencionais e holísticas, para entender o motivo de tanta insegurança, já que cresci numa família estruturada, meus pais sempre tiveram uma relação saudável, proporcionaram a mim e minhas duas irmãs tudo que necessitávamos e queríamos, estudamos em ótimas escolas, sempre fui boa aluna, participava de atividades extracurriculares e sempre rodeada de amigos. Me formei na faculdade de Direito sem grandes percalços e fui aprovada no exame da OAB de primeira. Tive dois namoros sérios, mas, atualmente estou solteira, porém, os dois términos foram amigáveis. 

 

E, apesar de tudo isso, ainda não me sinto adequada, sinto um incomodo interno, como se algo estivesse errado e todas minhas escolhas fossem incorretas. Isso afeta meu trabalho, pois sei que me impede de ter confiança para abrir meu escritório (sonho que almejo desde que decidi ser advogada), bem como meus relacionamentos, visto que tenho dificuldade de me envolver completamente, me entregar de verdade. 

 

Nesse primeiro encontro, ela me pediu para me acomodar no divã, me perguntou se gostava de música, o que respondi afirmativamente, então ela colocou uma canção suave, parecido com um mantra de relaxamento. Me pediu para fechar os olhos, relaxar, respirar, conforme ela me indicava e que me concentrasse em sua voz, suave e leve como um sussurro. 

 

Nas primeiras sessões tivemos avanços lentos, lembrei dos momentos felizes e dos tristes, como a perda da minha avó. Incrivelmente, sentia tudo como se estivesse lá, tanto as alegrias, quanto as tristezas. 

 

Foi na terceira sessão de hipnose que voltei para uma situação, que ainda tenho dificuldade de descrever com detalhes, sendo que me causou sentimentos estarrecedores. Parecia algo como século XVI ou XVII, eu estava em uma casa simples, isolada numa planície de grama, sem porteiras e que não se podia ver o fim, com uma moça, que sabia, era minha irmã, naquela vida. De repente surgiram homens irados, nos atacaram e nos prenderam, gritavam a todo momento que éramos bruxas. Lembro do horror e desespero que senti. 

 

Em suma, naquela vida era uma curandeira e parteira, ofício que aprendi com minha mãe e que minha irmã mais nova, estava iniciando. Atividade essa que, após a chegada de um missionário à vila da região, que passou a apontar nosso “ganha-pão” como algo demoníaco, pois o ofício da medicina só poderia ser realizado por homens. 

 

Ele inflamou tanto as pessoas do povoado que chegou ao ponto de sermos presas e julgadas como bruxas e adoradoras do demônio. Mesmo as famílias que ajudamos, colocando seus filhos no mundo e curando suas doenças, não mediram esforços para nos acusar. Éramos sozinhas, nossos pais já haviam falecido e meu pretendente na época, também virou as costas. 

 

Finalmente, a recordação mais marcante foi o dia de nossa morte: eles penduraram duas cordas em uma árvore gigante, todas as pessoas do povoado estavam em volta dela, esperando para assistir ao espetáculo. O missionário cuspiu as suas palavras de ódio, e os troncos embaixo de nossos pés foram derrubados. 

 

É triste pensar que, apesar de ter sido a tanto tempo, muitas pessoas ainda possuem essa mentalidade. Atualmente conquistamos a oportunidade de trabalhar com o que queremos, mas ainda não somos consideradas capazes o bastante. Nós mulheres apenas temos o direito de servir e obedecer. Nossos corpos são sexualizados em demasia, mas não pode ser feito de forma autônoma, para não nos considerarem depravadas. Eternamente desaprovadas e criticadas. Porém firmes, fortes e persistentes. 

 

Mirian, minha amiga querida, enquanto estou aqui, olhando para sua lápide, com flores nas mãos, desabando, sei que está me ouvindo e quero lhe dizer que sinto tanto por não ter tido a mesma chance que eu e poder entender de onde vinha essa dor que compartilhávamos. Saber que você esteve comigo em outras vidas, principalmente, partilhando de um momento tão intenso e como irmãs, me faz entender o motivo da ligação tão forte que tínhamos, desde que nos conhecemos. 

 

Hoje consigo seguir os conselhos, e não sentir mais culpa pelo que aconteceu. Percebo que não podia fazer mais do que fiz e nem evitar que fizesse a escolha que fiz, pois entendo o sentimento inenarrável que carregava. Minha amiga querida e irmã do coração, espero que esteja em paz hoje e sei que nos encontraremos em outras vidas. Te amo.

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