Seu texto começa onde deveria começar? Como melhorar o início de um conto, crônica ou microtexto
- 12 de ago.
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Todo texto começa na primeira linha. A história, nem sempre.
Uma das dúvidas mais comuns de quem pratica escrita criativa é como começar um texto de maneira interessante. Como escrever a primeira frase de um conto? O que deve aparecer no início de uma crônica? Quanto contexto o leitor precisa receber antes de uma história começar?
A resposta não está necessariamente em encontrar uma frase extraordinária. Muitas vezes, melhorar o início de um texto significa perceber que ele começou cedo demais.
É bastante comum que contos, crônicas e outros textos literários gastem os primeiros parágrafos preparando o terreno para aquilo que realmente desejam contar. O autor apresenta a personagem, explica onde ela vive, recupera acontecimentos anteriores, descreve circunstâncias, oferece informações que considera necessárias. Só depois, finalmente, alguma coisa acontece.
O problema é que talvez o leitor não precisasse saber de tudo isso antes de chegar lá.
Imagine uma história sobre uma mulher que, depois de vinte anos morando no mesmo apartamento, recebe uma carta destinada ao antigo proprietário. O conteúdo da carta muda completamente o que ela acreditava saber sobre aquele lugar.
Há muitas maneiras de começar esse texto.
Uma delas seria explicar quando a personagem comprou o apartamento, contar que o imóvel era antigo, descrever o bairro, mencionar que ela sempre recebeu correspondências equivocadas e esclarecer quem havia morado ali anteriormente.
Outra possibilidade seria começar assim:
A carta estava endereçada a um homem morto havia vinte e três anos.
De repente, existe uma pergunta.
Quem era esse homem? Por que aquela carta chegou agora? O que há dentro dela? E o que isso tem a ver com a mulher que a recebeu?
As informações anteriores talvez continuem sendo importantes. A diferença é que agora o leitor tem um motivo para querer conhecê-las.
Como começar um texto sem explicar tudo ao leitor?
Quando conhecemos toda a história que estamos escrevendo, é fácil acreditar que o leitor precisa receber as informações na mesma ordem em que nós as organizamos mentalmente.
Mas literatura não funciona como o preenchimento de uma ficha. Nome, idade, cidade, profissão, antecedentes, contexto familiar e descrição física podem ser informações importantes para o autor compreender uma personagem. Isso não significa que todas precisem ser apresentadas antes que a narrativa possa começar.
Pense em outro exemplo de abertura:
Pedro tinha 67 anos, era aposentado e morava sozinho desde a morte da esposa, ocorrida cinco anos antes. Todas as manhãs, acordava cedo, preparava café e caminhava até a praça do bairro, onde costumava alimentar os pombos.
Nada está necessariamente errado nessa introdução. Ela informa, situa e apresenta a personagem.
Mas suponha que a história seja sobre o dia em que Pedro encontra, naquela praça, a aliança que sua esposa havia perdido trinta anos antes.
Nesse caso, talvez a história esteja escondida algumas linhas adiante.
Pedro reconheceu a aliança antes mesmo de se abaixar para pegá-la.
Agora queremos saber por quê.
Que aliança é essa? Como ele a reconheceu? Como foi parar ali? A viuvez, a rotina, a praça e os trinta anos de história podem aparecer depois. E provavelmente terão mais força quando aparecerem, porque já existe alguma coisa em jogo.
Como saber se o início de um conto ou crônica está longo demais?
Existe uma pergunta simples que pode revelar muito durante a revisão de um texto literário:
Se eu eliminar meu primeiro parágrafo, o texto continua funcionando?
Se a resposta for sim, vale fazer outra experiência: elimine também o segundo. Isso não significa que todo conto precise começar no meio de uma ação, que toda crônica exija uma frase de impacto ou que uma boa primeira frase tenha necessariamente de produzir suspense.
Uma abertura lenta pode ser excelente. Uma descrição pode ser a escolha certa. Há textos em que uma construção inicial mais demorada faz parte do ritmo, da atmosfera ou da própria experiência de leitura proposta pelo autor.
A questão não é começar depressa. É descobrir onde uma história realmente começa.
Uma crônica pode nascer da observação de uma senhora escolhendo tomates durante quinze minutos na feira. Um conto pode começar com alguém olhando pela janela. Um poema pode precisar de alguns versos antes que sua imagem central se revele.
Lentidão e excesso de preparação são coisas diferentes. Na primeira, existe intenção. Na segunda, frequentemente existe informação esperando que a história comece.
O leitor precisa entender tudo no primeiro parágrafo?
Não.
Há um medo bastante comum por trás das introduções excessivamente explicativas: o medo de que o leitor não entenda. Por isso, o autor tenta evitar qualquer dúvida.
Explica quem chegou antes que alguém pergunte. Explica uma relação antes que ela se revele. Explica por que determinada lembrança importa antes que o leitor tenha a oportunidade de perceber sua importância. Só que não compreender tudo imediatamente não significa estar perdido. Às vezes, significa estar curioso.
Compare estas duas maneiras de começar uma história:
Marina não falava com a irmã havia sete anos por causa de uma discussão que aconteceu depois da morte da mãe.
Agora:
Quando viu o nome da irmã na tela do celular, Marina deixou tocar até parar.
Na segunda abertura, ainda não sabemos que houve uma briga. Não sabemos quando aconteceu nem por quê. Também não sabemos nada sobre a mãe. Mas sabemos que existe alguma coisa ali.
O contexto pode vir depois, justamente porque a ação criou espaço para ele. Essa diferença é especialmente importante na escrita de contos e crônicas, em que revelar uma informação no momento certo pode ser muito mais eficiente do que simplesmente apresentá-la ao leitor.
Como começar um texto curto ou microconto?
Quanto menor o texto, mais caro custa o caminho até a história. Uma crônica de duas páginas não dispõe do mesmo espaço que um romance. Um microconto de poucas linhas dispõe de menos ainda. Cada frase usada exclusivamente para preparar outra frase ocupa uma parcela significativa do texto.
Veja este exemplo:
João e Carlos eram amigos desde a infância e costumavam fazer tudo juntos. Depois de adultos, seguiram caminhos diferentes e passaram muitos anos sem se encontrar. Um dia, por acaso, João viu Carlos sentado sozinho em um café.
Talvez a história possa começar simplesmente:
João levou alguns segundos para reconhecer Carlos sozinho naquela mesa.
A infância compartilhada e os anos de afastamento continuam disponíveis para o autor. Apenas deixaram de funcionar como pedágio para que o leitor chegasse ao encontro.
No microconto e em outras narrativas curtas, essa economia pode ser ainda mais radical. Às vezes, não há espaço sequer para explicar o acontecimento. Cabe ao texto oferecer elementos suficientes para que o próprio leitor reconstrua parte da história.
É justamente aí que aquilo que não foi dito passa a trabalhar junto com aquilo que foi escrito.
Cortar o começo significa apagar informações importantes?
Não necessariamente. Perceber que um texto começou cedo demais não significa jogar fora tudo o que estava nos primeiros parágrafos.
Uma lembrança pode explicar determinado gesto. Uma característica da personagem pode ser essencial mais tarde. Um acontecimento anterior pode transformar a maneira como interpretamos uma cena. Tudo isso pode permanecer. Mas permanecer no texto não significa permanecer no começo.
Informações podem ser distribuídas ao longo da narrativa, aparecer em uma fala, ser sugeridas por uma ação ou surgir justamente no momento em que passam a fazer diferença para o leitor. Durante a revisão do conto, da crônica ou de qualquer narrativa, portanto, não pergunte apenas:
“O leitor precisa saber disso?”
Acrescente uma segunda pergunta:
“Ele precisa saber disso agora?”
As respostas podem ser completamente diferentes.
Como escrever uma boa primeira frase?
Existe uma tentação de tratar a primeira frase como uma pequena peça publicitária do texto. Ela precisaria surpreender, chocar, emocionar ou produzir imediatamente uma frase memorável.
Não precisa.
Uma boa primeira frase é aquela que cumpre uma função dentro do texto que está começando.
Ela pode apresentar uma voz. Criar uma imagem. Instalar uma pergunta. Introduzir um conflito. Estabelecer uma atmosfera. Ou simplesmente colocar diante do leitor alguma coisa que mereça sua atenção. O problema começa quando as primeiras frases existem apenas porque o autor acredita que precisa explicar certas informações antes de ter permissão para contar sua história.
Como revisar o começo de um texto literário
Depois de terminar um conto, uma crônica ou outra narrativa, volte às primeiras linhas e procure o primeiro momento em que algo desperta curiosidade, produz tensão, cria uma imagem interessante, apresenta uma voz particular ou coloca alguma coisa em movimento.
Talvez esteja na primeira frase. Talvez esteja no quarto parágrafo. Se estiver no quarto, observe atentamente tudo o que veio antes. O que aconteceria se o texto começasse ali? O leitor perderia uma informação indispensável ou apenas receberia essa informação mais tarde? A personagem ficaria incompreensível ou apenas menos explicada? A história perderia sentido ou ganharia uma pergunta?
Esse exercício pode ajudar tanto quem está aprendendo como escrever um conto quanto quem trabalha com crônicas, microcontos e outras formas de narrativa.
Não existe uma fórmula capaz de determinar o ponto exato em que toda história deve começar. Existe, porém, uma diferença importante entre preparar uma história e adiá-la.
Na próxima vez que terminar um texto, experimente voltar ao início e procurar onde está sua verdadeira primeira linha.
Pode ser que você já a tenha escrito. Só não tenha começado por ela.



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