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poemas finalistas
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O ano que não quis acabar
Alexandre Monteiro
Ao fim de dezembro
De um ano vulgar,
Em tarde sem brilho,
Nem triste nem bela,
O ano decide
Não mais terminar.
A Terra que gira
Em torno de si e
Em torno do Sol
Se opõe a girar.
Que Newton diria
Da força invisível
Que une planetas,
Que busca cometas,
Não mais atuar?
Que Einstein diria
De tal rebeldia?
Vendo a teoria
Se desmoronar.
Os doutos doutores
São improdutivos
Ao raro propósito
Querer explicar.
A filosofia
Por vários caminhos
O fato especula e
Se perde no ar.
Um ano que agora
Sem mais Carnavais,
Nem Páscoas, Natais,
Prossegue a deriva
Sem nunca aportar.
E tudo que possa
Na Terra existir,
E tudo que venha
a se repetir –
As pragas do Egito,
O incêndio dos maias,
O choro holocáustico,
A queda das torres –
Num tempo sem tempo,
Fadado a voltar.
Onde foi parar a poesia dos sonhos?
Ana Maria Rodrigues-Barbosa
Meus sonhos são coisas triviais
Já achei que não há cura maior
Do que um dia atrás do outro
- E uma noite bem dormida entre eles
Meu pai cochilava aqui e ali
Se levantava no meio da noite
Bebia café, fumava
E adormecia naturalmente
Minha mãe
Às vezes largava a rotina
Deitava-se após o almoço
E alcançava o anoitecer
Ambos sem culpa
Como há de ser
Já amei alguém
E ele dizia:
‘Tempo dormido, nunca é perdido’
Eu me colocava no lugar da paz
Ao deitar-me ao ar livre,
Sob árvores
Vento ninando minha pele
E uma entrega suave
No conforto do meio frio-meio calor
Ou quando conversas e sons iam sumindo
Começavam ao meu lado
Como um botão analógico lerdo
Girado sem pressa
Eu partia aos poucos
Deixando-os só, como sussurros
Embalada pela cantiga do cotidiano
Nem os sons nem eu saímos do lugar
Mas abria-se um abismo entre nós
O essencial habitat de não-ser
O lugar do conforto
E eu cavalgava corajosa
Sobre montanhas terracota
Perdia dentes, esfarelados
Sã e salva, experimentava o Armagedon
Anunciado por auroras boreais
Elas formavam vacas de neon no horizonte
E o medo dava lugar ao riso
Mas o melhor era correr
Os pés iam se levantando do solo
Seu movimento era a hélice
Eu me sustentava assim
Andando no ar
Um, dois quarteirões
Passadas fantásticas
Um gozo sem reprodução
Liberdade e grandeza de bicho
Não com asas, mas com pernas pra voar
O que sonhavam meu pai e minha mãe?
Essa gente que morreu com sono fácil
Dela, sei de premonições
Duas, trágicas,
Cumpridas na mesma manhã
Isso, além de sua doçura.
Conferia-lhe uma delicada autoridade
Não para criticar, punir
Mas para acolher, orientar
E ajudar quem lhe pedia
A conduzir outros tipos de sonhos
Aqueles voluntários
Mesmo que nascidos dos incontroláveis
Lamento, saudosa
Ainda existem as vozes, os latidos, o farfalhar
A melodia do cotidiano, os motores
A brisa ainda roça
Porém, os olhos fechados
A respiração ritmada e contada
Inspira 1, expira 2
Inspira 3, expira 4
E um sobressalto
Os pensamentos-imperadores
Fazer isso, fazer aquilo
Realizar sonho disso, sonho daquilo
Amanhã, depois, daqui a um ano
Nova contagem
Outro sobressalto
Uma prescrição, uma pílula.
Preciso dormir agora,
Preciso levantar tal hora
O sono artificial, induzido
Resta o sonho do insone
Cerrar os olhos
Embarcar no distanciamento
Perambular por territórios alheios
Acordar meio perdido
Porque o sol já se põe
Mas sorrir e relaxar
Porque ainda é hoje
E já, já, poderá dormir de novo
Até amanhã, quando o sol nascer
Sem tempo perdido
Somente entoado suavemente
A poesia do adormecer
Saudade
André Justi
Tem um lugar em mim
que desaprendeu você
e, mesmo assim,
te continua.
As cadeiras da casa
procuram teu peso.
O copo esqueceu
como se enche de boca.
Meu nome anda torto
sem a tua pronúncia.
Há dias em que o vento
chega com teus dedos.
Passa devagar
pela janela que era tua,
e me mexe por dentro
como quem arruma ausência.
Guardei teu riso
numa gaveta de água,
mas ele vaza
e molha o que ainda sou.
O tempo aqui
não passa,
mastiga devagar
o que ficou de você.
Minha pele cria atalhos
para o que não está,
e me encontra em parte,
no que ainda me falta.
Há um silêncio
que usa teu perfume
e me atravessa
sem pedir corpo.
Tentei esquecer,
mas o esquecimento
não sabe
onde você mora.
Então fico
nessa fronteira sem mapa
que aprendeu meu nome
para me habitar.
O Poder de ir embora
Bia Castro
Quando eu me levanto e vou embora
Minha bisavó se liberta do meu bisavô
E encontra, outra vez, o caminho de sua tribo.
Quando eu me levanto e vou embora,
Minha avó recupera a infância perdida
Que lhe foi roubada por um casamento arranjado.
Quando eu me levanto e vou embora,
Minha mãe aprende a viver para si,
E não apenas para cuidar do meu pai.
Quando eu me levanto e vou embora,
Não há mais homem algum
No caminho da minha filha.
Nenhum que a impeça
De também se levantar
E ir embora.
O Peso de Ser Luz
Camila Nunes
Eles aprenderam desde cedo
A serem casa, porto e segredo.
Porém, nunca foram ensinados
A morar nesse lar tão calado
Ou fechar a porta ao desgaste e ao medo.
Cresceram como velas acesas,
Em janelas de vidas indefesas,
Iluminando caminhos alheios...
Mas derretendo em silêncios cheios,
Enquanto a dor se escondia entre as frestas.
Disseram que amar era se doar,
E eles foram sem saber voltar.
Como oferecer até a última gota,
Quando o próprio peito já se esgota,
Se esquecendo também de se saciar,
Enquanto aprendiam a sempre se calar.
Viraram abrigo em tempestade,
De dores que não eram suas de verdade,
Guarda-chuvas abertos ao vento,
Sem escolha, sem pertencimento.
Se molhando por dentro aos poucos,
Carregando pesos que nunca foram seus.
Ninguém percebe quando a alma adoece,
Nem o silêncio que aos poucos cresce.
Um pedido mudo por atenção,
Mas o rosto ainda veste um sorriso então,
Treinado a esconder o que enfraquece,
E a fingir força que já não floresce.
Eles se acostumaram a podar
Os próprios galhos para se encaixar,
Sem notar que, nesse processo,
Se perdiam de si em excesso,
Desfazendo a própria raiz,
Por quem nunca os quis.
E um dia o cansaço chega enfim,
Silencioso, mas pesado assim,
Não como grito, mas como pressão,
Que aperta o peito em contradição,
Ao ver que foram tudo até o fim...
Mas nunca inteiros dentro de si.
E talvez, o começo da cura
Seja enxergar, sem nenhuma censura,
Que não nasceram para se consumir,
Nem para em silêncio desistir,
Mas para serem fogo que perdura,
E que também a si mesmos assegura.
Blusa colorida
Denilton Carlos Gaio
Vinha arrumando a blusa,
fio a fio:
a gola, o ombro, o decote,
o jeito, o gesto.
e no meu peito, as rimas.
Divertidas cores
sobre as formas
brincavam nas dobras
tecendo olhares
Devagarinho. Passo a passo
e num mergulho de passarinho,
risca na água um traço: agita o rio
e a blusa vira pluma
que ela arruma
em seu banho de sol.
Uma bem-te-vi
que bem me viu
logo a mim, menino,
canarinho tão só.
O voo das tranças,
e o andar balança
até o luar.
Ainda não lhe mostrarei meus versos
Acho que ainda me faltam uns botões.
HiperPlano
Lucas Jerzy Portela
“Amar o que o mar traz a praia e é detrito”
Carlos Drummond de Andrade
amor, planeta
estranho, planeta
desabitado, e inabitável
rochoso e sem água potável
onde não há rotação
(e, portanto, noites
nem dias),
ou habitado apenas
por sobreviventes insetos
nucleares, sobreatômicos:
baratas - periplaneta transamericana;
planeta, pequeno
e exilado, como pedra
(cabe numa mão fechada)
à beira da praia
empurrada pela maré
para fora de sua órbita,
ou pinaúna
seca, sem espinhos,
indefesa exposta ao sol,
delicada espaçonave de gesso
(também ela abandonada);
amor, objeto infértil
anti-semente
como o solo não é uma muda
e um cristal não é uma planta;
pedra, incomum forma
de pedra
translúcida
e de brilho próprio.
De volta para mim
Clotilde Rocha
Roubaram-me o silêncio,
tomaram meu corpo como se fosse chão sem dono.
Fizeram da minha pele fronteira de golpes,
da minha boca, cárcere de gritos.
Mas sobrevivi.
E do abismo recolhi pedaços de mim,
espalhados como vidros de janela quebrada.
Minhas cicatrizes não são ornamento,
são mapas de retorno.
Hoje caminho devagar,
cada passo me reconduz.
Minha voz, que tentaram enterrar,
ergue-se primeiro como sussurro,
e depois como canto firme.
Não sou a dor que me impuseram,
nem o medo que marcaram na minha pele.
Sou a casa que reergue as próprias paredes,
sou a árvore que volta a dar sombra,
sou o rio que reencontra a nascente.
De volta para mim,
com minhas marcas e minha verdade,
descubro que viver
foi sustentar, sob a ruína,
a mulher que ainda em mim habitava.
Divas do Marabaixo
Dorinha Prego
Quem é esta moça de africanidade?
De jeito faceiro de batom carmim
Com rendas e fitas bonitas de ver
De saia rodada que esbarra em mim
Quem é esta mulher de unhas pintadas
Com flor chamativa no cacho pendente
Do cabelo preso e bem penteado
Que toca uma caixa com a força da gente
Quem são essas musas marabaixeiras?
Com blusas brancas e bem alinhadas
Que cantam que dançam em total formosura
De mangas folhadas e bem perfumadas
Quem são essas Donas de todos os tempos?
Princesas negras desses rituais
Pavulagem de sobra e encatamento
Signos que marcam nossos ancestrais
Quem são essas divas da ancestralidade?
Que puxam o Marabaixo com firmeza
Mãe África: deusas vivas trazendo verdades
São donas do agora, da minha fortaleza
Parte da parte
Marta Souza
Às vezes sou parte,
Parte de uma parte,
Que se liga em outra parte,
Mas que são só partes,
Partes da parte da metade.
Metade da parte que parte.
Parte para a outra parte.
Sofre em parte,
Porque parte é só parte.
Parte mesmo,
Que não é inteira,
Às vezes é assim,
Só uma parte da parte.
Pode ser inteira,
Não sei, só sei das partes que partem.
A Festa das Letras
Marta Caldas
No coração de Letrolândia, o som antecede a voz.
Uma corrente sutil organiza o invisível.
Letras vibram em criação contínua.
Tecem palavras, sentidos, destinos.
Um pulso atravessa o campo: a Festa das Letras.
O reino se expande em camadas.
Vogais abrem portais.
Consoantes sustentam estruturas.
Combinações ensaiam novos fluxos.
Ritmos se encontram.
Tudo vibra em precisão.
Em um ponto quase imperceptível, a letra H observa.
Presença leve.
Transita entre frequências.
Habita o intervalo.
Sente-se à margem do brilho coletivo.
Um sussurro interno a contrai.
Sua forma oscila entre presença e ausência.
O campo percebe o desalinho.
Letras se aproximam em ondas.
Oferecem sons, gestos, ressonâncias.
O contato se desfaz antes de tocar o centro.
No salão de cristal, a assembleia se revela.
No eixo, a rainha A.
Origem. Direção. Sopro inicial.
Seu campo sustenta o todo.
Ela escuta.
O silêncio se amplia.
Dentro dele, caminhos se organizam.
Um convite se abre.
No jardim onde o tempo responde à consciência, a H chega.
Carrega um silêncio denso.
Expressa a ausência de som isolado.
Revela uma existência percebida como incompleta.
Seu campo vibra em recolhimento.
A rainha sustenta presença.
Nada precisa ser ajustado.
Tudo pode ser visto.
Chama o Fonema.
Ele emerge em frequência viva.
Inteligência sonora em estado puro.
Ao perceber o campo, um movimento se desenha: um coral.
Ensaios começam.
Sons se entrelaçam em espiral.
Ritmos se alinham em pulsos contínuos.
Vogais expandem espaços.
Consoantes estruturam passagens.
Dígrafos revelam novas conexões.
O conjunto cresce.
Um vazio percorre o campo.
A H observa à distância.
O dia se revela.
O palco se ilumina desde dentro.
A luz nasce do próprio som.
O silêncio inaugura o instante.
— Ahhhh...
O som se abre. Algo busca sustentação.
— Ohhh...
A expansão pede profundidade.
— Hum...
A forma chama presença.
O campo sente a lacuna.
A H percebe.
Um reconhecimento atravessa seu centro.
Sua energia sustenta passagens invisíveis.
Seu lugar pulsa no entre.
Ali, o som encontra espaço para existir.
A rainha se levanta.
Um chamado vibra em todas as direções.
A H avança.
Cada passo revela densidade.
Seu contorno se firma.
Seu brilho se manifesta.
No encontro, separações se dissolvem.
A compreensão se instala em silêncio.
Retorno.
O coral recomeça.
— Ahhhh...
Agora respira inteiro.
— Ohhh...
Aprofunda em camadas.
— Hum...
Se torna presença.
O som encontra seu espaço.
O conjunto se alinha.
O reino se eleva em harmonia viva.
A festa acontece além da forma.
A H sorri.
E, em Letrolândia, algo permanece
vivo,
sutil,
essencial,
respirando
entre um som e outro.
O corpo ainda lembra a casa
Aurora Valente
O corpo ainda lembra a casa.
Lembra como era entrar
ocupando menos do que cabia.
Lembra a boca
guardando pergunta.
Lembra a garganta
cheia de palavras.
Lembra a obrigação
com nome de gratidão.
Na cozinha,
eu sabia pelo olhar
quando até a água
devia fazer pouco barulho.
Eu era pequena,
mas já sabia durar.
Antes de brincar,
ensaiava o rosto.
Antes de pedir,
eu lavava o banheiro,
guardava a vontade,
oferecia as mãos.
Antes de chorar,
eu guardava o rosto
no quarto
como quem guarda
o que ninguém podia ver.
Depois, eu cresci.
Mas meu corpo ainda
media o tom da sala
antes de respirar.
Às vezes, entro nos lugares
escolhendo o canto
antes da conversa.
Às vezes, calo
antes que a palavra
encontre saída.
Há uma menina em mim
que ainda olha para a porta
como se alguém pudesse entrar
sem deixar cobrança na soleira.
Havia sapatos
grandes demais
para a minha infância.
Havia amor
cobrando serviço
antes de pousar a mão.
Não bato mais
na porta antiga.
Volto sem abrir a porta,
para tirar do canto
quem ficou esperando.
E deixo no chão
os sapatos
que nunca tiveram
o tamanho
dos meus pés.
Puerpério
Nairim Tatiane Lima Chaves
Saí da maternidade
Um sonho nos braços
Uma cicatriz no ventre
Uma nova realidade:
Cheguei em casa e nem dormi!
O primeiro mês foi cruel
Cólicas, lágrimas, dor no peito:
— Era pra eu estar feliz!
Pensei que seria o céu
Mas não sei como sobrevivi...
A casa refletia o meu interior
Tudo fora do lugar:
Na mesa, o banheiro
Na cama, um trocador
No espelho, não me reconheci!
Ela só queria meu colo
E eu fingia ter forças
Tão pequena, tão frágil
Eu seguia o protocolo:
— Tá tudo bem! Estou aqui!
Queria mesmo um banho:
Quente, lento, revigorante
Mas entre fraldas e mamadas
O tempo corria estranho
E não sobrava nada pra mim!
Em nossos passeios de tarde
As pessoas só sorriam:
— Passa rápido! Aproveita!
Mas parecia uma eternidade
Nunca chegava ao fim...
E no meio das madrugadas
Nosso amor era posto à prova
Ela me olhava
Eu fechava os olhos
Deus também estava ali!
Carneiro Leão
Teté
Esse taco de sinuca é maior que esse menino.
Entre os dedos, a bituca e o suor de mais um pino.
Caminhei a passos curtos pro Largo.
Eram quase quatro, o jogo ia começar.
Onze jogadores, dez atletas de bar.
Numa esquina, Vida Vazia.
Na outra, o culto vazio, as ruas vazias, os botecos cheios.
Nesse bairro de limbo, meio centro, meio leste,
onde as mágoas aprendem a nadar, eu aprendi apenas a caminhar.
As chaves soam como um alerta,
mas todos eles sabem que sou daqui:
uma cascavel, deslizo, arrastando os pés -
pouca roupa, pouca marra, como muitos.
São três quadras, ouvi cantadas em três idiomas diferentes.
Passei pelo viaduto, ouvi sussurros bem de perto,
quase um beijo, de um conhecido
tentando me vender um relógio.
"150, e não se fala mais nisso".
Fala do meu cabelo, tira algo dele,
pergunta onde eu trabalho.
Ele ignora que me conhece.
100, pergunta onde eu estava,
por que meus pés estão brancos,
por que o cabelo molhado.
80, meu nome virou Morena, alguns olham preocupados,
mas sei o que estou fazendo.
50, até acabar o papo.
Ele vai voltar pro Rio, e eu, atravessar a ponte.
Homens me desejam boa tarde,
me desejam boa noite, me desejam, apenas.
Eu já senti a falta e a ferida que surge
quando deixamos que eles cheguem muito perto,
por isso não compro mais mentiras, nem verdades, nem relógios.
O sino da igreja soa, o copo gelado sua, o Corinthians sai na frente.
O nome da rua tem a inocência e a força,
o animal mais temido e o mais passivo de qualquer folclore -
a dualidade que me enjoa de tão óbvia,
mas que me escorre pelos poros há 25 anos.
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