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poemas finalistas

LEIA AS OBRAS & VOTE NA SUA FAVORITA

As obras finalistas do Prêmio Literário Outono em Vários Tons estão reunidas aqui para leitura. Conheça os textos, descubra novas vozes e escolha aquele que mais conquistou você.​ Para participar da votação aberta, acesse o post oficial no Instagram pelo link abaixo e deixe seu voto nos comentários. A participação acontece exclusivamente por lá.

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Você pode comentar e interagir com a publicação quantas vezes quiser. Para fins de votação, porém, o sistema contabilizará um voto por pessoa.

O ano que não quis acabar

Alexandre Monteiro

Ao fim de dezembro

De um ano vulgar,

Em tarde sem brilho,

Nem triste nem bela,

O ano decide

Não mais terminar.

 

A Terra que gira

Em torno de si e

Em torno do Sol

Se opõe a girar.

 

Que Newton diria

Da força invisível

Que une planetas,

Que busca cometas,

Não mais atuar?

 

Que Einstein diria

De tal rebeldia?

Vendo a teoria

Se desmoronar.

 

Os doutos doutores

São improdutivos

Ao raro propósito

Querer explicar.

 

A filosofia

Por vários caminhos

O fato especula e

Se perde no ar.

 

Um ano que agora

Sem mais Carnavais,

Nem Páscoas, Natais,

Prossegue a deriva

Sem nunca aportar.

 

E tudo que possa

Na Terra existir,

E tudo que venha

a se repetir –

As pragas do Egito,

O incêndio dos maias,

O choro holocáustico,

A queda das torres –

Num tempo sem tempo,

Fadado a voltar.

Onde foi parar a poesia dos sonhos?

Ana Maria Rodrigues-Barbosa

Meus sonhos são coisas triviais

Já achei que não há cura maior

Do que um dia atrás do outro

- E uma noite bem dormida entre eles

Meu pai cochilava aqui e ali

Se levantava no meio da noite

Bebia café, fumava

E adormecia naturalmente

Minha mãe

Às vezes largava a rotina

Deitava-se após o almoço

E alcançava o anoitecer

Ambos sem culpa

Como há de ser

Já amei alguém

E ele dizia:

‘Tempo dormido, nunca é perdido’

Eu me colocava no lugar da paz

Ao deitar-me ao ar livre,

Sob árvores

Vento ninando minha pele

E uma entrega suave

No conforto do meio frio-meio calor

Ou quando conversas e sons iam sumindo

Começavam ao meu lado

Como um botão analógico lerdo

Girado sem pressa

Eu partia aos poucos

Deixando-os só, como sussurros

Embalada pela cantiga do cotidiano

Nem os sons nem eu saímos do lugar

Mas abria-se um abismo entre nós

O essencial habitat de não-ser

O lugar do conforto

E eu cavalgava corajosa

Sobre montanhas terracota

Perdia dentes, esfarelados

Sã e salva, experimentava o Armagedon

Anunciado por auroras boreais

Elas formavam vacas de neon no horizonte

E o medo dava lugar ao riso

Mas o melhor era correr

Os pés iam se levantando do solo

Seu movimento era a hélice

Eu me sustentava assim

Andando no ar

Um, dois quarteirões

Passadas fantásticas

Um gozo sem reprodução

Liberdade e grandeza de bicho

Não com asas, mas com pernas pra voar

O que sonhavam meu pai e minha mãe?

Essa gente que morreu com sono fácil

Dela, sei de premonições

Duas, trágicas,

Cumpridas na mesma manhã

Isso, além de sua doçura.

Conferia-lhe uma delicada autoridade

Não para criticar, punir

Mas para acolher, orientar

E ajudar quem lhe pedia

A conduzir outros tipos de sonhos

Aqueles voluntários

Mesmo que nascidos dos incontroláveis

Lamento, saudosa

Ainda existem as vozes, os latidos, o farfalhar

A melodia do cotidiano, os motores

A brisa ainda roça

Porém, os olhos fechados

A respiração ritmada e contada

Inspira 1, expira 2

Inspira 3, expira 4

E um sobressalto

Os pensamentos-imperadores

Fazer isso, fazer aquilo

Realizar sonho disso, sonho daquilo

Amanhã, depois, daqui a um ano

Nova contagem

Outro sobressalto

Uma prescrição, uma pílula.

Preciso dormir agora,

Preciso levantar tal hora

O sono artificial, induzido

Resta o sonho do insone

Cerrar os olhos

Embarcar no distanciamento

Perambular por territórios alheios

Acordar meio perdido

Porque o sol já se põe

Mas sorrir e relaxar

Porque ainda é hoje

E já, já, poderá dormir de novo

Até amanhã, quando o sol nascer

Sem tempo perdido

Somente entoado suavemente

A poesia do adormecer

Saudade

André Justi

Tem um lugar em mim

que desaprendeu você

e, mesmo assim,

te continua.

 

As cadeiras da casa

procuram teu peso.

O copo esqueceu

como se enche de boca.

 

Meu nome anda torto

sem a tua pronúncia.

Há dias em que o vento

chega com teus dedos.

 

Passa devagar

pela janela que era tua,

e me mexe por dentro

como quem arruma ausência.

 

Guardei teu riso

numa gaveta de água,

mas ele vaza

e molha o que ainda sou.

 

O tempo aqui

não passa,

mastiga devagar

o que ficou de você.

 

Minha pele cria atalhos

para o que não está,

e me encontra em parte,

no que ainda me falta.

 

Há um silêncio

que usa teu perfume

e me atravessa

sem pedir corpo.

 

Tentei esquecer,

mas o esquecimento

não sabe

onde você mora.

 

Então fico

nessa fronteira sem mapa

que aprendeu meu nome

para me habitar.

O Poder de ir embora

Bia Castro

Quando eu me levanto e vou embora

Minha bisavó se liberta do meu bisavô

E encontra, outra vez, o caminho de sua tribo.

 

Quando eu me levanto e vou embora,

Minha avó recupera a infância perdida

Que lhe foi roubada por um casamento arranjado.

 

Quando eu me levanto e vou embora,

Minha mãe aprende a viver para si,

E não apenas para cuidar do meu pai.

 

Quando eu me levanto e vou embora,

Não há mais homem algum

No caminho da minha filha.

Nenhum que a impeça

De também se levantar

E ir embora.

O Peso de Ser Luz

Camila Nunes

Eles aprenderam desde cedo

A serem casa, porto e segredo.

Porém, nunca foram ensinados

A morar nesse lar tão calado

Ou fechar a porta ao desgaste e ao medo.

 

Cresceram como velas acesas,

Em janelas de vidas indefesas,

Iluminando caminhos alheios...

Mas derretendo em silêncios cheios,

Enquanto a dor se escondia entre as frestas.

 

Disseram que amar era se doar,

E eles foram sem saber voltar.

Como oferecer até a última gota,

Quando o próprio peito já se esgota,

Se esquecendo também de se saciar,

Enquanto aprendiam a sempre se calar.

 

Viraram abrigo em tempestade,

De dores que não eram suas de verdade,

Guarda-chuvas abertos ao vento,

Sem escolha, sem pertencimento.

Se molhando por dentro aos poucos,

Carregando pesos que nunca foram seus.

 

Ninguém percebe quando a alma adoece,

Nem o silêncio que aos poucos cresce.

Um pedido mudo por atenção,

Mas o rosto ainda veste um sorriso então,

Treinado a esconder o que enfraquece,

E a fingir força que já não floresce.

 

Eles se acostumaram a podar

Os próprios galhos para se encaixar,

Sem notar que, nesse processo,

Se perdiam de si em excesso,

Desfazendo a própria raiz,

Por quem nunca os quis.

 

E um dia o cansaço chega enfim,

Silencioso, mas pesado assim,

Não como grito, mas como pressão,

Que aperta o peito em contradição,

Ao ver que foram tudo até o fim...

Mas nunca inteiros dentro de si.

 

E talvez, o começo da cura

Seja enxergar, sem nenhuma censura,

Que não nasceram para se consumir,

Nem para em silêncio desistir,

Mas para serem fogo que perdura,

E que também a si mesmos assegura.

Blusa colorida

Denilton Carlos Gaio

Vinha arrumando a blusa,

fio a fio:

a gola, o ombro, o decote,

o jeito, o gesto.

e no meu peito, as rimas.

 

Divertidas cores

sobre as formas

brincavam nas dobras

tecendo olhares

 

Devagarinho. Passo a passo

e num mergulho de passarinho,

risca na água um traço: agita o rio

e a blusa vira pluma

que ela arruma

em seu banho de sol.

 

Uma bem-te-vi

que bem me viu

logo a mim, menino,

canarinho tão só.

 

O voo das tranças,

e o andar balança

até o luar.

Ainda não lhe mostrarei meus versos

Acho que ainda me faltam uns botões.

HiperPlano

Lucas Jerzy Portela

“Amar o que o mar traz a praia e é detrito”

Carlos Drummond de Andrade

 

amor, planeta

estranho, planeta

desabitado, e inabitável

 

rochoso e sem água potável

onde não há rotação

(e, portanto, noites

nem dias),

 

ou habitado apenas

por sobreviventes insetos

nucleares, sobreatômicos:

baratas - periplaneta transamericana;

 

planeta, pequeno

e exilado, como pedra

(cabe numa mão fechada)

à beira da praia

 

empurrada pela maré

para fora de sua órbita,

 

ou pinaúna

seca, sem espinhos,

indefesa exposta ao sol,

delicada espaçonave de gesso

(também ela abandonada);

 

amor, objeto infértil

anti-semente

como o solo não é uma muda

e um cristal não é uma planta;

 

pedra, incomum forma

de pedra

translúcida

e de brilho próprio.

De volta para mim

Clotilde Rocha

Roubaram-me o silêncio,

tomaram meu corpo como se fosse chão sem dono.

Fizeram da minha pele fronteira de golpes,

da minha boca, cárcere de gritos.

 

Mas sobrevivi.

E do abismo recolhi pedaços de mim,

espalhados como vidros de janela quebrada.

Minhas cicatrizes não são ornamento,

são mapas de retorno.

 

Hoje caminho devagar,

cada passo me reconduz.

Minha voz, que tentaram enterrar,

ergue-se primeiro como sussurro,

e depois como canto firme.

 

Não sou a dor que me impuseram,

nem o medo que marcaram na minha pele.

Sou a casa que reergue as próprias paredes,

sou a árvore que volta a dar sombra,

sou o rio que reencontra a nascente.

 

De volta para mim,

com minhas marcas e minha verdade,

descubro que viver

foi sustentar, sob a ruína,

a mulher que ainda em mim habitava.

Divas do Marabaixo

Dorinha Prego

Quem é esta moça de africanidade?

De jeito faceiro de batom carmim

Com rendas e fitas bonitas de ver

De saia rodada que esbarra em mim

 

Quem é esta mulher de unhas pintadas

Com flor chamativa no cacho pendente

Do cabelo preso e bem penteado

Que toca uma caixa com a força da gente

 

Quem são essas musas marabaixeiras?

Com blusas brancas e bem alinhadas

Que cantam que dançam em total formosura

De mangas folhadas e bem perfumadas

 

Quem são essas Donas de todos os tempos?

Princesas negras desses rituais

Pavulagem de sobra e encatamento

Signos que marcam nossos ancestrais

 

Quem são essas divas da ancestralidade?

Que puxam o Marabaixo com firmeza

Mãe África: deusas vivas trazendo verdades

São donas do agora, da minha fortaleza

Parte da parte

Marta Souza

Às vezes sou parte,

Parte de uma parte,

Que se liga em outra parte,

Mas que são só partes,

Partes da parte da metade.

Metade da parte que parte.

Parte para a outra parte.

Sofre em parte,

Porque parte é só parte.

Parte mesmo,

Que não é inteira,

Às vezes é assim,

Só uma parte da parte.

Pode ser inteira,

Não sei, só sei das partes que partem.

A Festa das Letras

Marta Caldas

No coração de Letrolândia, o som antecede a voz.

Uma corrente sutil organiza o invisível.

Letras vibram em criação contínua.

Tecem palavras, sentidos, destinos.

Um pulso atravessa o campo: a Festa das Letras.

 

O reino se expande em camadas.

Vogais abrem portais.

Consoantes sustentam estruturas.

Combinações ensaiam novos fluxos.

Ritmos se encontram.

Tudo vibra em precisão.

 

Em um ponto quase imperceptível, a letra H observa.

 

Presença leve.

Transita entre frequências.

Habita o intervalo.

Sente-se à margem do brilho coletivo.

Um sussurro interno a contrai.

Sua forma oscila entre presença e ausência.

 

O campo percebe o desalinho.

Letras se aproximam em ondas.

Oferecem sons, gestos, ressonâncias.

O contato se desfaz antes de tocar o centro.

 

No salão de cristal, a assembleia se revela.

No eixo, a rainha A.

Origem. Direção. Sopro inicial.

Seu campo sustenta o todo.

 

Ela escuta.

 

O silêncio se amplia.

Dentro dele, caminhos se organizam.

Um convite se abre.

 

No jardim onde o tempo responde à consciência, a H chega.

Carrega um silêncio denso.

Expressa a ausência de som isolado.

Revela uma existência percebida como incompleta.

Seu campo vibra em recolhimento.

 

A rainha sustenta presença.

Nada precisa ser ajustado.

Tudo pode ser visto.

Chama o Fonema.

 

Ele emerge em frequência viva.

Inteligência sonora em estado puro.

Ao perceber o campo, um movimento se desenha: um coral.

Ensaios começam.

 

Sons se entrelaçam em espiral.

Ritmos se alinham em pulsos contínuos.

Vogais expandem espaços.

Consoantes estruturam passagens.

Dígrafos revelam novas conexões.

O conjunto cresce.

 

Um vazio percorre o campo.

A H observa à distância.

O dia se revela.

 

O palco se ilumina desde dentro.

A luz nasce do próprio som.

O silêncio inaugura o instante.

— Ahhhh...

O som se abre. Algo busca sustentação.

— Ohhh...

A expansão pede profundidade.

— Hum...

A forma chama presença.

O campo sente a lacuna.

A H percebe.

 

Um reconhecimento atravessa seu centro.

Sua energia sustenta passagens invisíveis.

Seu lugar pulsa no entre.

Ali, o som encontra espaço para existir.

 

A rainha se levanta.

Um chamado vibra em todas as direções.

A H avança.

 

Cada passo revela densidade.

Seu contorno se firma.

Seu brilho se manifesta.

No encontro, separações se dissolvem.

 

A compreensão se instala em silêncio.

Retorno.

O coral recomeça.

 

— Ahhhh...

Agora respira inteiro.

— Ohhh...

Aprofunda em camadas.

— Hum...

Se torna presença.

 

O som encontra seu espaço.

O conjunto se alinha.

O reino se eleva em harmonia viva.

A festa acontece além da forma.

A H sorri.

 

E, em Letrolândia, algo permanece

vivo,

sutil,

essencial,

respirando

entre um som e outro.

O corpo ainda lembra a casa

Aurora Valente

O corpo ainda lembra a casa.

 

Lembra como era entrar

ocupando menos do que cabia.

Lembra a boca

guardando pergunta.

 

Lembra a garganta

cheia de palavras.

Lembra a obrigação

com nome de gratidão.

 

Na cozinha,

eu sabia pelo olhar

quando até a água

devia fazer pouco barulho.

 

Eu era pequena,

mas já sabia durar.

Antes de brincar,

ensaiava o rosto.

 

Antes de pedir,

eu lavava o banheiro,

guardava a vontade,

oferecia as mãos.

 

Antes de chorar,

eu guardava o rosto

no quarto

como quem guarda

o que ninguém podia ver.

 

Depois, eu cresci.

Mas meu corpo ainda

media o tom da sala

antes de respirar.

 

Às vezes, entro nos lugares

escolhendo o canto

antes da conversa.

Às vezes, calo

antes que a palavra

encontre saída.

 

Há uma menina em mim

que ainda olha para a porta

como se alguém pudesse entrar

sem deixar cobrança na soleira.

 

Havia sapatos

grandes demais

para a minha infância.

Havia amor

cobrando serviço

antes de pousar a mão.

 

Não bato mais

na porta antiga.

Volto sem abrir a porta,

para tirar do canto

quem ficou esperando.

 

E deixo no chão

os sapatos

que nunca tiveram

o tamanho

dos meus pés.

Puerpério

Nairim Tatiane Lima Chaves

Saí da maternidade

Um sonho nos braços

Uma cicatriz no ventre

Uma nova realidade:

Cheguei em casa e nem dormi!

 

O primeiro mês foi cruel

Cólicas, lágrimas, dor no peito:

— Era pra eu estar feliz!

Pensei que seria o céu

Mas não sei como sobrevivi...

 

A casa refletia o meu interior

Tudo fora do lugar:

Na mesa, o banheiro

Na cama, um trocador

No espelho, não me reconheci!

 

Ela só queria meu colo

E eu fingia ter forças

Tão pequena, tão frágil

Eu seguia o protocolo:

— Tá tudo bem! Estou aqui!

 

Queria mesmo um banho:

Quente, lento, revigorante

Mas entre fraldas e mamadas

O tempo corria estranho

E não sobrava nada pra mim!

 

Em nossos passeios de tarde

As pessoas só sorriam:

— Passa rápido! Aproveita!

Mas parecia uma eternidade

Nunca chegava ao fim...

 

E no meio das madrugadas

Nosso amor era posto à prova

Ela me olhava

Eu fechava os olhos

Deus também estava ali!

Carneiro Leão

Teté

Esse taco de sinuca é maior que esse menino. 

Entre os dedos, a bituca e o suor de mais um pino.

Caminhei a passos curtos pro Largo. 

Eram quase quatro, o jogo ia começar.

 

Onze jogadores, dez atletas de bar. 

Numa esquina, Vida Vazia. 

Na outra, o culto  vazio, as ruas vazias, os botecos cheios. 

Nesse bairro de limbo, meio centro, meio leste, 

onde as mágoas aprendem a nadar, eu aprendi apenas a caminhar. 

 

As chaves soam como um alerta, 

mas todos eles sabem que sou daqui: 

uma cascavel, deslizo, arrastando os pés -

pouca roupa, pouca marra, como muitos. 

São três quadras, ouvi cantadas em três idiomas diferentes. 

Passei pelo viaduto, ouvi sussurros bem de perto, 

quase um beijo, de um conhecido 

tentando me vender um relógio.

 

"150, e não se fala mais nisso". 

Fala do meu cabelo, tira algo dele, 

pergunta onde eu trabalho. 

Ele ignora que me conhece. 

 

100, pergunta onde eu estava, 

por que meus pés estão brancos, 

por que o cabelo molhado. 

80, meu nome virou Morena, alguns olham preocupados, 

mas sei o que estou fazendo. 

50, até acabar o papo. 

 

Ele vai voltar pro Rio, e eu, atravessar a ponte. 

Homens me desejam boa tarde, 

me desejam boa noite, me desejam, apenas. 

Eu já senti a falta e a ferida que surge 

quando deixamos que eles cheguem muito perto, 

por isso não compro mais mentiras, nem verdades, nem relógios. 

 

O sino da igreja soa, o copo gelado sua, o Corinthians sai na frente. 

O nome da rua tem a inocência e a força, 

o animal mais temido e o mais passivo de qualquer folclore - 

a dualidade que me enjoa de tão óbvia, 

mas que me escorre pelos poros há 25 anos.

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